
O que significa “mito”?
Pensamos em mito como antônimo de verdade, uma mentira, algo inexistente.
Mas não é o que a filosofia nos diz.
Na verdade, o mito pode ter surgido de uma história verdadeira ou fictícia, mas a importância disso para seu conceito é simplesmente nula.
O que importa é a repercussão que tal história criou no inconsciente coletivo e, por fim, nas relações interpessoais, culturais e religiosas de uma população.
Então, por exemplo, um ato histórico pode ser um mito. Quando? A partir do momento que as pessoas começam a vincular a este ato histórico um caráter demasiado importante a ponto deste acontecimento se tornar parte delas, e resultante da história delas. Ou seja, o ato teve tanta importância, que a pessoa o cultua e torna majoritário para sua existência.
Por isso, o mito está intimamente ligado ao rito – não que o mito não exista sem o rito – mas a questão é que quando algo torna-se parte da nossa identidade, temos a tendência de enaltecer de alguma forma.
No dicionário temos:
rito
ri.to
sm (lat ritu) 1 Conjunto de cerimônias e fórmulas de uma religião e de tudo quanto se refere ao seu culto ou liturgia. 2 Cerimonial próprio de qualquer culto. 3 Culto, religião, seita. 4 Ordem ou conjunto de quaisquer cerimônias.
Ou seja, para àqueles que tem mitos, é esperado que façam ritos.
Por isso que uma religião é um mito, mas não importa para a filosofia se ela tem ou não origem verídica, e sim, o impacto que ela têm aos seus crentes.
O conhecimento da importância consequencial do mito é que leva à compreensão mais justa – e por isso menos preconceituosa – das pessoas em relação às crenças alheias e diversas às suas.
Aprender a respeitar as crenças dos outros, por mais malucas que possam parecer, é um processo rarefeito da sociedade. Mas é pela dificuldade do indivíduo em compreender o que significa ser sacro ao outro. Um mito leva a sacristia. E na nossa sacristia: “ninguém mexe!” . O sacro é o que vai além da importância vitalícia. Para um islâmico, Alah é sacro, então o ser humano não é digno de representá-lo por imagens. Para o judeu, o sacro é Deus, que não pode ser pronunciado em seus nomes (e respeitando-os, mesmo conhecendo alguns, não vou pronunciar). Para o cristão, Jesus Cristo é sacro. Então piadas com o nome de Cristo é uma verdadeira ofensa.
É por isso, que nestas e outras religiões, os reais crentes são capazes de dar a vida em defesa do mito. Pois aquilo assume uma importância acima da própria existência.
Quando alguém não respeita o mito alheio, aparece na mídia reportagens que podem até se tornarem de caráter intolerante, mas que devem ser analisadas pelo ponto de vista dos religiosos em questão. Exemplos: um repórter dinamarquês que desenha a imagem de Muhammed e não sabe porque ficou tão odiado; Um pastor de uma denominação evangélica que chuta a imagem de uma santa em plena televisão; uma ridicularização gradativa das crenças cristãs por alguns que se dizem cientistas; e segue a lista.
Posso fazer uma fraca analogia com um defensor político revolucionário. Sei lá… Zapata, Che, Gandhi, Mandela… Acho que Gandhi entra melhor no nosso exemplo. Cada vez que guerreavam contra os ideais dele, ele fazia greve de fome. Ou seja, o defensor é capaz de morrer por algo que ele defende, pois ele acredita que será para um bem maior que sua própria vida.
O sacro vai muito além da própria vida de alguém que o tem. É um amor incondicional à figura sacra. É o mito. Então além de valer mais do que a vida, deve ser cultuado e adorado (Rito).
No Brasil temos o preconceito religioso tão bem camuflado que a ridicularização sempre ganha tom de “inocente piadinha”. Mas não deixa de ser ofensivo e bastante desagradável para quem está “do outro lado”.
É contra este tipo de situação que luto. E tento mostrar aos que ainda são cegos deste assunto.
Para terminar o post, deixo uns versos do mestre Pessoa.
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo.
Obrigada pela leitura. Tenham um bom dia.